"Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam."
(Manoel de Barros)
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
Retornamos
o trabalho presencial na escola. Mas
não consigo me encontrar. Ou melhor: me reencontrar. A
professora que saiu dali um dia. Com medo. Com tristeza. Com angústia e muita
insegurança. A
morte paira todos os ambientes e é como uma sombra. Onde estou, ela está. Tão
presente que quase consigo ver seu rosto, sua face em cada notícia. Cada morte.
Importa. Vontade
de dizer: Mostre de vez sua cara e me leve logo! Não aguento mais ter que aguentar!
Cansada de estar. Ver tudo e não poder fazer. Colocar as mãos. Sentir cada
abraço. Cada sorriso, cada conquista. Nada. Ela
nos afastou tanto que coube somente a frieza das telas que nós cobrem. Tela de
TV. Tela de computador. Tela de celular... Tela! Minha mãe sempre usava telas para proteger as
coisas de comer em casa. Telas transparentes feitas de seda, com penduricalhos.
Lembrança boa. Mas o melhor mesmo estava embaixo. Escondido e era, na maioria
das vezes doce! O sentir! Mas
as telas tristes de nossas vidas são frias! São aquelas que também cobrem
nossos mortos. Tantos são eles que nem puderam ser vistos. Tules com
buraquinhos pequenos e apertados. Na face pálida e fria. Pálida e fria deve ser
sua face! Sem oxigênio. Sem vida. Um pouco com máscara asfixia, você também
sente? Ou ainda sente? Por
aqui, na escola eu estou, mas não estou. Tento existir, apesar de tantos sem
oxigênio. Nosso
oxigênio aqui são as crianças. Sim. Elas são o sentido do nosso existir no chão
da escola. Nosso
ser colo. Ser abraço. Ser braços, colos, olhos, ouvidos e pernas, todos
multiplicados! Não
existe ser, sem ser toque. Sem ser aconchego em educação infantil. É o mesmo
que querer existir sem oxigênio. Quando
falo colo é colo mesmo! No
sentido literal da palavra. Crianças são crianças. Se espalham por todos os
cantos. Ocupam todos os espaços e constroem. Permitindo o existir. Assim como o
oxigênio. “Desenparedando”
seus saberes e aprendizagens em produções fantásticas. Sendo cor, sabor,
cheiro, texturas e sons. Nossa
escola está pálida. Entre
tantas tentativas de pensar em ter eles aqui de forma completa, organizar a
sala, mas não construir. Somente organizar, higienizar e ficar “clean”. Hoje
preciso ser “clean”. Na sala e até no respirar! É
preciso deixar ventilar. Abrir e disponibilizar. Aos poucos. Com cuidado. Com
racionar! Tentar
existir sendo clean. Arrumando
nosso espaço “clean” encontrei uma forma de vida tão espetacular que até meus
músculos faciais não contiveram a máscara! De
repente ele estava ali esperando ser encontrado! Meus
olhos vibraram e minha boca soltou um grito! Olhem
o que achei! Um
boneco! As mãozinhas miúdas e maiores do mundo conseguiram fazer um formato tão
maravilhoso! Foi
como encontrar vida em Marte! Surgiram
vozes dentro da minha cabeçada: Olha! Fiz um super herói com poderes de voar,
andar... E diria com todo o prazer: de respirar e me salvar! Que
alívio! Aos
poucos me reencontrar! Inspira! Respira e pede pra Deus ajudar! Definitivamente não consigo, porque não quero
ser "clean"...