segunda-feira, 25 de janeiro de 2021


Retornamos o trabalho presencial na escola.
Mas não consigo me encontrar. Ou melhor: me reencontrar.
A professora que saiu dali um dia. Com medo. Com tristeza. Com angústia e muita insegurança.
A morte paira todos os ambientes e é como uma sombra. Onde estou, ela está. Tão presente que quase consigo ver seu rosto, sua face em cada notícia. Cada morte. Importa.
Vontade de dizer: Mostre de vez sua cara e me leve logo! Não aguento mais ter que aguentar! Cansada de estar. Ver tudo e não poder fazer. Colocar as mãos. Sentir cada abraço. Cada sorriso, cada conquista. Nada.
Ela nos afastou tanto que coube somente a frieza das telas que nós cobrem. Tela de TV. Tela de computador. Tela de celular... Tela!
 Minha mãe sempre usava telas para proteger as coisas de comer em casa. Telas transparentes feitas de seda, com penduricalhos. Lembrança boa. Mas o melhor mesmo estava embaixo. Escondido e era, na maioria das vezes doce! O sentir!
Mas as telas tristes de nossas vidas são frias! São aquelas que também cobrem nossos mortos. Tantos são eles que nem puderam ser vistos. Tules com buraquinhos pequenos e apertados. Na face pálida e fria. Pálida e fria deve ser sua face! Sem oxigênio. Sem vida. Um pouco com máscara asfixia, você também sente? Ou ainda sente?
Por aqui, na escola eu estou, mas não estou. Tento existir, apesar de tantos sem oxigênio.
Nosso oxigênio aqui são as crianças. Sim. Elas são o sentido do nosso existir no chão da escola.
Nosso ser colo. Ser abraço. Ser braços, colos, olhos, ouvidos e pernas, todos multiplicados!
Não existe ser, sem ser toque. Sem ser aconchego em educação infantil. É o mesmo que querer existir sem oxigênio.
Quando falo colo é colo mesmo!
No sentido literal da palavra. Crianças são crianças. Se espalham por todos os cantos. Ocupam todos os espaços e constroem. Permitindo o existir. Assim como o oxigênio.
“Desenparedando” seus saberes e aprendizagens em produções fantásticas. Sendo cor, sabor, cheiro, texturas e sons.
Nossa escola está pálida.
Entre tantas tentativas de pensar em ter eles aqui de forma completa, organizar a sala, mas não construir. Somente organizar, higienizar e ficar “clean”. Hoje preciso ser “clean”. Na sala e até no respirar!
É preciso deixar ventilar. Abrir e disponibilizar. Aos poucos. Com cuidado. Com racionar!
Tentar existir sendo clean.
Arrumando nosso espaço “clean” encontrei uma forma de vida tão espetacular que até meus músculos faciais não contiveram a máscara!
De repente ele estava ali esperando ser encontrado!
Meus olhos vibraram e minha boca soltou um grito!
Olhem o que achei!
Um boneco! As mãozinhas miúdas e maiores do mundo conseguiram fazer um formato tão maravilhoso!
Foi como encontrar vida em Marte!
Surgiram vozes dentro da minha cabeçada: Olha! Fiz um super herói com poderes de voar, andar... E diria com todo o prazer: de respirar e me salvar!
Que alívio!
Aos poucos me reencontrar!
Inspira! Respira e pede pra Deus ajudar!
Definitivamente não consigo, porque não quero ser "clean"... 
 (Larissa Vitti Stenico)