quarta-feira, 26 de maio de 2021

 

A docência sob um só

Mariana S. Campos

A escola se encontra vazia, mesmo aberta e mesmo recebendo crianças. Estamos vivendo um momento terrível e assustador, que colocou o planeta todo sob a mesma perspectiva: a de perdermos seres humanos para uma doença nefasta. Mas essa nova realidade trouxe à tona realidades que já observamos, mas poucos agiam sobre. Vivemos uma crise na educação e uma crise social, que existe há anos, mas nunca esteve assim tão escancarada para toda a sociedade.

Nós professoras vivemos essa realidade há anos dentro dos muros das escolas, vemos como a pobreza, a fome, o descaso e invisibilidade afetam na vida e, portanto, o aprendizado de nossas crianças. Vivemos em meio a casos de violência física e social que estas crianças vivem desde o nascimento, vivências essas que causam marcas definitivas e dolorosas e que jogam nossas crianças e jovens cada vez mais às margens da sociedade. Dentro dos muros da escola nós vemos essa realidade escancarada, e buscamos das formas que nos são possíveis suprir essas carências emocionais, intelectuais e físicas dessas crianças.

A pandemia apenas gritou esse quadro para mais pessoas, fez propaganda da fome e do descaso e, mesmo de maneira agressiva e incompreensiva, mostrou como a escola é importante. Infelizmente em nosso país a escola e todos aqueles que trabalham nela só passaram a ser mais atacados, mais desvalorizados. Mais uma vez carregando culpas que nos lhes cabem. O medo dos outros aparentemente não pode aplicar-se a nós, temos que novamente dar nossas caras a tapa e enfrentarmos tudo como se não fossemos seres humanos. Assim reabrimos as escolas: sem vacinas, sem suporte, com medo por nós e pelos nossos e, como sempre, não sendo importantes. Mas essa abertura não demonstrou descaso apenas com funcionários, foi principalmente com as crianças e com a escola como instituição. Esse desejo e anseio de ter as escolas abertas em momento que morrem mais de 1000 pessoas por dia em nosso país demonstram como a escola tem sido visto há anos: nada mais somos que um depósito de crianças. Temos ouvido das famílias que de nada adianta a eles a escola atendendo as crianças uma vez por semana (seja pais que trabalham ou não), temos ouvido como as famílias querem as crianças integralmente todos os dias na escola, pois não aguentam mais coabitar com suas crianças. E ouvir isso mais uma vez nos sangra, pois enxergamos como nós e escola e vista pela sociedade, mais uma vez nossa função é distorcida apenas ao cuidado e a recreação dessas crianças.

E assim reabrimos e recebemos essas crianças: que estão claramente agitadas com a situação, que sentem falta da escola como ela era. Não estão se concentrando na rotina da escola (pois não existe uma forma de oferecer solidez nesse momento). As crianças estão carentes de abraços, querem nos ver sem máscaras, querem que acalentemos o choro delas; e nós também sentimos falta desse contato, de ver os sorrisos e, principalmente, de nos sentirmos seguros ao partilharmos esses momentos com eles.

Hoje me encontro aqui, tentando fazer meu diário de bordo com algum otimismo, buscando relatar como tem sido essas últimas semanas e só me vem à cabeça como tem sido vazio. Essa semana tive contato com apenas 1 criança da minha turma de 22. Por um lado, passamos a conseguir ouvir e trabalhar mais com o que aquela criança precisa, mas por outro vemos como é depressiva a aprendizagem sem a interação entre pares e como nosso trabalho se faz tão árduo como quando estamos em salas superlotadas.

Assim finalizo meus pensamentos desejando que essa pandemia passe sem mais perdas e que, um dia, nosso país possa se curar dessa doença chamada descaso, que vem afetando nossas escolas e, portanto, nossa sociedade.

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